domingo, março 13, 2005

Um Bicho da Terra

O livro “Um Bicho da Terra” de Agustina Bessa Luís, editado em 1984, fala-nos acerca de Gabriel da Costa, um homem nascido no Porto na segunda metade do século XVI, oriundo duma família de cristãos-novos.

Bento da Costa (morre em 1608) e Branca da Costa (casaram-se em 1567) são os pais de Gabriel da Costa que nasceu e cresceu numa casa da Rua de São Miguel, oriunda do ramo materno, uma das trinta entregues pela municipalidade do Porto em 1492 a judeus sefarditas fugidos de Espanha.

“Sabe-se que fazia parte da herança do atafoneiro a casa da Rua de São Miguel que Bento reconstruiu depois, tornando-a opulenta moradia. Posto que Branca era a herdeira dessa casa, uma das trinta cedidas pela municipalidade do Porto aos judeus refugiados de Espanha, ela era incluída nesse exílio, ou seja, seu avô, o atafoneiro Álvaro Rodrigues, que morreu por volta de 1539-1541, teria vindo de Espanha em 1492, sendo moço e forçado a converter-se em Portugal, em obediência ao édito de D. Manuel, de 1496. Beneficiando dum decreto que proibia a perseguição aos cristãos-novos pelo período de vinte anos, o que era o tempo necessário a uma integração da segunda geração, decerto Álvaro Rodrigues continuou a guardar os velhos ritos, e seus filhos foram neles iniciados, enquistando-se o marranismo com o decorrer dos anos.” Pág. 173h

Da parte da família paterna também constava queixa marrana.

“Desde o princípio do século XVI, cripto-judeus saíam do país, procurando numa vasta área da Europa melhor proporção para os seus negócios e melhor inspiração para o talento. No entanto, alguns cristãos-novos, mestiçados com famílias influentes, ainda que não insuspeitas, conservam-se na cidade e até ocupavam postos de relevo. Ligados ao resto do mundo por poderosas redes comerciais, administrando bancos e carregando frotas de toda a espécie de produtos coloniais, açúcar e madeira especialmente, esses cristãos-novos constituíam o que se chama a espinha dorsal da consciência nutritiva. Neste caso estava Bento da Costa Brandão, cavaleiro da Ordem de Cristo e cavaleiro fidalgo da casa da Infanta D. Isabel. Na realidade, na sua genealogia, consta queixa marrana; e, pelo casamento, com dama rica e de posição, adquiriu fama de mestiçagem e reforçou as dúvidas sobre a sua origem. Bento da Costa Brandão, negociante de vinhos, recebeu por dote de sua mulher, Branca Dinis, uma das casas da Rua de São Miguel e procedeu a reparações importantes. Em 1580 já aí morava e, provavelmente, tinha na corte alguma consideração.”
Pág. 14


Gabriel da Costa era um pensador livre, racionalista, que fugiu de Portugal com a família para Amesterdão devido à perseguição cada vez mais feroz que era infligida contra os judeus ou contra aqueles suspeitos de práticas judaizantes. Perseguição que muitas vezes de religiosa só tinha o pretexto pois é sabido que os judeus portugueses, a partir do decreto de D. Manuel de 1497, a imposição da inquisição por parte de D. João III em 1540 e o progressivo declínio comercial português, principalmente a partir do momento em que se iniciou o domínio filipino em 1580, começaram a desenvolver um trato preferencial com os países rivais de Portugal (Inglaterra, França, Holanda). Daí que eram perseguidos de forma a serem obtidas informações acerca dos seus negócios desfavoráveis a Portugal. É sabido o importante papel que os cristãos-novos portugueses tiveram no estabelecimento duma Companhia das Índias Orientais que tanto favoreceu a Holanda.

“Praticamente, o estado da política peninsular era difícil, e a economia entrou em crise, o que decidiu parte dos portugueses a desenvolver o trato com a Holanda, França e Inglaterra, países inimigos. A criação duma Companhia das Índias Orientais (…) é sugerida e planeada pelos cristãos-novos; estes entram imediatamente em desgraça e começa uma nova era de perseguição. Nesta fase histórica situa-se a decisão dos Costa Brandão para abandonar o país.” Pág. 77, 78

“A agitação quanto ao papel dos judeus e cristãos-novos era muito forte, e atribuía-se-lhe enorme influência na destruição da Índia Ocidental; a aliança comos holandeses era tão notória como condenável, e Dacosta, escritor anti-semita, atribuía aos judaizantes portugueses e espanhóis uma imensa actividade económica que punha em risco o comércio do Ocidente.” Pág. 69, 70

Neste contexto, a perseguição aos judeus utilizava pretextos religiosos quando, no fundo, o que queria perscrutar, muitas vezes, era quais os caminhos dos negócios estabelecidos por esses cristãos-novos.

“ (…) processos levantados contra cristãos-novos e que só aparentemente se instruíam sobre a pureza da prática religiosa (…). As províncias holandesas eram na época uma área económica de grande efeito, e para isso ajudavam os capitais dos cristãos-novos de Portugal, que contribuíam com as suas economias, não só como emigrantes, mas também como residentes em Portugal, fazendo chegar um caudal de ouro por intermédio de parentes até às bases bancárias de Hamburgo e Amesterdão. A partir de certa altura, os processos da inquisição destinavam-se a deter essa sangria do erário real por meio de sucintas sentenças de confiscação de bens.” Pág. 153

“Maria e Álvaro foram acusados de cumplicidade na fuga da família, mas, na realidade, tratava-se de obter deles informações sobre a correspondência quem mantêm com a Baía e com Amesterdão; e também com Salónica e até com os portugueses de Veneza, protegidos e até adulados pela Senhoria, porque são ali os animadores do grande comércio.” Pág. 184

Os motivos da fuga do país da família de Gabriel da Costa para a Holanda também não se prenderam exclusivamente com o medo de que fossem perseguidos devido a motivos religiosos mas devido, principalmente, à necessidade de encontrar um local mais favorável para o desenvolvimento dos seus negócios. O país filipino encontrava-se em má situação económica.

“Os negócios iam mal, com as dificuldades criadas pela governação espanhola e a guerra com a Holanda. De Madrid vinham os administradores, pobres e remendados, e partiam carregados de ouro, com cem mulas cambaias de tanto peso de haveres, meios dados, meio roubados. Não havia zelo nem ordem, a corrupção era enorme; fazia-se fortuna com a teia dos impostos, a inspecção das alfândegas. E os nobres ou burgueses sempre pediam mais pela confiança que Castela neles depositava” pág. 33, 34

“Depois, o comércio externo fora afectado pela ordenação de 1595 que proibia aos mercadores fretarem no estrangeiro navegação, incluindo pilotos e marinheiros. Isto protegia as armadas peninsulares, mas criava para os fretes em causa uma margem de insegurança. Os mercadores-banqueiros substituíram-se aos condutores de mercadorias, como eram os Costa-Brandão. Jácome, neste campo, foi o maior instigador para a saída para Amesterdão, tendo em vista dominar ele próprio a economia marítima e colonial desde a sua casa bancária a situar em Hamburgo.” Pág. 43, 44

Em Amesterdão os irmãos de Gabriel tiveram um grande sucesso económico. Gabriel, que na Holanda mudou o nome para Uriel, enredou-se em grandes polémicas religiosas com a comunidade judaica chegando mesmo a ser excomungado. Isto porque desenvolveu um pensamento que ia contra a ortodoxia judaica:

“ (…) o que produzia o sentimento de tragédia era, não a morte dos sentidos, mas a fascinação da perda irremissível do poder criador, da aptidão a decidir por si mesmo como personagem histórica.” Pág. 71

Vemos que este pensamento tem grandes relações com o existencialismo.

“Negar a alma imortal era dar ao homem um direito terrível sobre a História, situando-a acima da fé.” Pág. 130

“Na verdade, ele nunca fora exemplarmente um cristão, e muito menos um judeu converso. O quarto das meditações do seu tempo de aluno no Colégio das Artes, tinha nas paredes os seus gritos convulsivos face a uma época de baixa superstição e de fé pueril e amedrontada. As dúvidas que o atormentavam eram muito inferiores ao desejo de situar o homem na sua verdadeira dignidade.” Pág. 132

“Mas Gabriel duvidava; a dúvida era a grande peste da sua raça, era um verme que lhe roía o coração. Na dúvida há sempre um pouco de criação pessoal, de génio próprio. A dúvida é insubmissa e não deixa que o homem seja domesticado completamente.” Pág. 138

“Era mais salutar ser ateu, do que ser falsificador da verdade para com isso produzir o sofrimento dum só homem” pág. 155

“A vida depois da morte e a teoria da revelação eram, para esses filósofos da elite hebraica espanhola, o sefardita puro, apenas mitos. Foi nesse tipo de pensamento averroísta, alimentado no seu cepticismo pela violência da instituição que foi o Santo Ofício, que se fundou Gabriel da Costa para escrever as suas audaciosas teorias da negação da alma imortal.” Pág. 170

“Discutiam, planeavam sinceramente esse combate triunfal que Uriel coroava com a sua ideia do vazio de Deus como dom concedido ao próprio homem” pág. 183, 184

“Eu luto pela verdade e, antes de tudo, pela liberdade inata aos homens, que deveriam desembaraçar-se das falsas superstições e dos ritos mais vãos e levar uma vida não indigna da sua qualidade de homens” pág, 199


Estes pensamentos foram muito mal recebidos pela comunidade judaica em Amesterdão que procurava garantir o mais possível a ortodoxia:

“A decadência do nervo peninsular que se iniciara com a expulsão dos judeus de Espanha, quando havia de facto uma inteligente adaptação intelectual e operacional entre cristãos, árabes e judeus, provocou um fenómeno de ortodoxia extremamente vigilante entre o povo da diáspora. Os homens mais profundamente situados no terreno dos negócios, os banqueiros e os armadores, a gente do trato colonial, ouviam modestamente o parecer dos doutores e deixavam que ele ficasse registado nas actas. Havia entre eles, tanto dentro como fora de Amesterdão, um policiamento da ortodoxia que se assemelhava a outra Inquisição. A prática da lei era tão observada e tão atentamente medida com olho implacável, como o faziam os católicos no mundo cristão Isso foi o que mais impressionou Gabriel da Costa…” pág. 116, 117

Para se ter uma ideia como funcionava uma congregação judaica em Amesterdão aqui vai mais um excerto do livro:

“O Mahamad, o respeitável comité que era constituído por 7 indivíduos, (…) governava a congregação. Abrãao Aboab (…) era pregador oficial, assim como Saul Morteira e David Pardo (…). O Mahamad redigira os estatutos segundo os quais a comunidade seria dirigida; as decisões eram inapeláveis, e quem as contrariasse sofria a pena de excomunhão, o herem, a maior das censuras eclesíasticas dos judeus; mais ainda do que a excomunhão da igreja católica, pois impunha ao que fosse sujeito a anátema da privação, não só do convívio religioso, como do convívio civil. Também era proibido imprimir livros, tanto ladinos como hebraicos, sem serem submetidos a censura e sujeitos a emenda e rasura. Tudo isto foi para Gabriel motivo de decepção.” Pág. 122

Saído dum ambiente asfixiante como era Portugal para os livre pensadores, Gabriel vai ter uma grande desilusão por continuar a encontrar esse ambiente em Amesterdão. Gabriel começava então a incomodar bastante a comunidade judaica em Amesterdão que o via como “uma ameaça para a unidade triunfal da diáspora ibérica.” Pág 255. As repercussões não tardaram.

A publicação do seu livro intitulado “Exame das Tradições Farisaicas conferidas com a Ley, escrito por Uriel Jurista, Hebreo, com resposta a hum Semuela da Silva, seu falso Calumniador” trouxe-lhe problemas. Nele se falava contra a imortalidade da alma e contra a ideia da recompensa dos bons e do castigo dos maus.

“O livro foi imediatamente queimado e Uriel preso, sujeito a multa e expulso de Amesterdão.” pág. 259

Tendo como principal instigador Levi Morteira (chefe da sinagoga Bet Jacob e para quem o uso da razão era uma ameaça à fé), Uriel foi excomungado duas vezes. A primeira de 1618 a 1633 e, depois de uma breve reconciliação, de 1633 a 1640, ano do seu suicídio. Até 1638 Amesterdão era composta por três sinagogas sefarditas, a Bet Israel, a Bet Jacob e a Neve Salom. Em 1638 uniram-se numa só, a Talmud Tora. A reunião das três casas serviu de pretexto para Levi Morteira impor princípios bastante severos, a que não foram também alheias motivações políticas,

“Começou por proibir a organização de qualquer outra congregação (…) De resto, as leis promulgadas e pelas quais seria governada a comunidade de Amesterdão, eram directamente dirigidas aos dissidentes, heréticos, barulhentos, marranos portugueses, a saber: os que levantavam a voz na sinagoga em uso abusivo de contestação e diálogo sectário; os que traziam armas de fogo (…); os que imprimiam, na cidade ou fora dela, livros de língua ladina ou hebraica, sem licença, revisão e emenda, caso o necessitassem. Estas medidas tinham também significado político e defendiam a comunidade dos receios dos holandeses, que duvidavam das intenções dos sefarditas, tão numerosos como modelares na qualidade. Tantos doutores e ricos mercadores deixavam no ar avisos contrários ao culto da liberdade que se fizera o carácter étnico dum povo. Não haveria espiões pagos por Espanha no meio dos foragidos? O seu comportamento era alvo das maiores preocupações, e por isso impunha o rigor nos costumes e a prudência nas leis.” Pág. 270

Foi neste contexto que decorreram as excomunhões de Gabriel. Se é verdade que na altura das suas excomunhões as sinagogas ainda funcionavam separadamente, também não deixa de ser verdade que já nessa altura os comportamentos eram muito vigiados de forma a respeitar-se a ortodoxia judaica e a não dar motivos de desconfiança aos holandeses. Relativamente à primeira excomunhão atente-se neste excerto,

“Uriel da Costa ia sofrer durante quinze anos a pena da excomunhão que significava a total separação da comunidade, a impossibilidade de ter contacto com outras pessoas, de ser socorrido na doença ou auxiliado na miséria. Era a peste;” pág. 301

Acerca de Gabriel o do seu perseguidor Levi Morteira podemos atentar nas seguintes palavras,

“Ele (Gabriel) continha decerto a fina intuição dum pensamento iluminista que seria, nos seus pressupostos e métodos, assim como princípios idealistas, algo que colidia com o religioso e o metafísico. Levi Morteira, na sua terrível diatribe que durou mais de vinte anos, apercebeu-se de que, na crítica de Uriel da Costa contra o dogma e o costume, havia um sintoma do abalo sísmico que era a autonomia do pensamento frente ao foro teológico.” pág. 286, 287

“«Maldito seja de dia e maldito seja de noite», diz o texto do herem de Uriel” Pág.233

Gabriel acaba por se suicidar em 1640 depois de pela segunda vez ter feito um movimento de reconciliação com a comunidade judaica de Amesterdão. Será que Gabriel estava através deste acto a querer provar aos seus perseguidores a terrível liberdade criadora do ser humano e a sua tremenda responsabilidade perante a história?

domingo, novembro 07, 2004

Pro petitione lacrimarum

Deixeme-nos encantar pela beleza desta antiga oração cristã:

Deus omnipotente
considera favorável estas orações
e alaga nossos olhos com rios de lágrimas
que apaguem as flamas dos incêncdios merecidos.


Oração retirada do livro "O Dom das Lágrimas: orações da antiga liturgia cristã", da editora Assírio e Alvim.

Como nos lembra Joaquim Félix de Carvalho, nesse mesmo livro, os códices medievais eram constituídos por uma série de missas que procuravam satisfazer determinadas necessidades. Umas podiam ser celebradas para afastar a tempestade (Pro tempestates repellendas)ou a peste dos animais (Pro peste animalium); pedir caridade (Ad postuladam charitatem) e serenidade (Ad poscendam serinitatem); afastar maus pensamentos (Pro repellendas malas cogitationes); pedir chuva (Ad pluviam postulandam) ou pedir o dom das lágrimas (Pro petitione lacrimarum). A oração transcrita em cima é uma das fórmulas que constituíam a missa Pro petitione lacrimarum

domingo, outubro 24, 2004

O transpor do abismo

O ofício de qualquer artista reside precisamente na tentativa de exprimir o significante, ou seja, transformar em matéria aquilo que habita dentro de nós. O artista procura dar existência aos seus sentimentos através dum determinado sistema simbólico. Acerca destas considerações sugiro a leitura do seguinte excerto de Nabokov no livro, "A verdadeira vida de Sebastian Knight":

A sua luta com as palavras era invulgarmente dolorosa, e isto por dois motivos. Um deles era o habitual nos escritores do seu tipo: o transpor do abismo entre expressão e pensamento; a sensação desesperante de que a palavra certa, a única palavra possível os espera na margem oposta, lá ao longe, entre brumas, e os estremecimentos do pensamento ainda nu, a chamar por ela deste lado do abismo. De nada lhe serviam as frases banais porque as coisas que ele queria dizer eram de um talhe excepcional; sabia, além disso, que nenhuma ideia tem existência real sem palavras feitas à medida. E assim (para usar uma comparação mais exacta) o pensamento que apenas parecia nú implorava afinal que as roupas que vestia se tornassem visíveis, enquanto as palavras espreitando ao longe não eram, embora o parecessem, invólucros vazios, antes esperavam só que o pensamento que já traziam encerrado em si as inflamasse e lhes desse vida. Às vezes sentia-se como uma criança a quem tivessem dado um emaranhado de fios, ordenando-lhe que com eles fizesse o milagre da luz. E ele fazia-o; e às vezes não se apercebia sequer de como era bem sucedido na tarefa; de outras vezes torturava os fios durante horas da maneira que parecia ser a mais racional - e nada conseguia. E Clare, que não escrevera em toda a sua vida uma única linha de poesia ou prosa literária, compreendia tão bem (e era esse o seu milagre pessoal) cada pormenor da luta de Sebastian, que as palavras que passava à máquina eram menos os veículos do seu sentido natural do que as curvas e fossos e ziguezagues que mostravam o percurso de Sebastian ao longo de uma certa linha ideal de expressão.

Tradução de Ana Luísa Faria

sexta-feira, outubro 15, 2004

Paula Rego

Inaugura hoje a exposição de Paula Rêgo no Museu de Serralves. É uma oportunidade única para ver uma antológica dos últimos anos da artista. Dentro dessa amostra pode-se encontrar a nova série chamada “Possessão”, onde Paula Rêgo pinta numa série de quadros o corpo duma mulher possuído por algo. Desejo? Amor? Dor? Angústia? Para a realização desta série, Paula Rêgo inspirou-se nas fotografias de pessoas com histeria de Jean Martin Charcot (1825-1893), presentes no livro “Les Demoniaques dans l´art”. Nas palavras da autora:

Tenho o livro «Les Demoniaques dans l´art» que inclui desenhos e fotografias muito bonitos de mulheres a terem convulsões e a retorcerem-se todas. Sempre me interessei muito pelos gestos que as pessoas dão para exprimirem situações interiores de angústia. Nos quadros renascentistas há posições de dor bastante extremas, que são muito expressivas.

A forma como o corpo traduz o espírito, como o significante traduz o significado, eis o tema de “Possessão”. A não perder.

Excerto retirado da entrevista realizada pelo jornal “Público” de 14/10/2004


Convite do Museu de Serralves

quarta-feira, outubro 13, 2004

Dicionário II

No texto de Lídia Jorge publicado anteriormente encontram-se três vocábulos que merecem ser melhor explicitados pelo dicionário. São eles:

1. adejando - agitar as asas para se manter no ar durante o vôo; voar
2. ajoujado - fazer vergar com peso ou carga excessiva; sobrecarregar
3. ajaezada - cheio de enfeites; ornado, adereçado


A prosa de Lídia Jorge

O Dia dos Prodígios

Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. Alguidarzinho ajoujado de espuma cremosa, um alguidar maior de pura água macia. Novelo de saias entre pernas. Cadeira de tábua ajaezada de nódoas, flores vermelhas. Os pés aí juntos no fundo côncavo. As pernas de leve penugem rasinha.

A língua portuguesa é um espanto. E quando é Lídia Jorge a trabalhar com tal matéria prima ainda mais espantosa fica.

domingo, outubro 10, 2004

A implantação da República II

Logo a seguir à implantação da República tomou posse o Governo Provisório cujo presidente era Teófilo Braga (professor e escritor), mas que contava também com homens como Bernardino Machado (negócios estrangeiros), José Relvas (finanças) ou Afonso Costa (justiça). Os principais pontos do programa republicano foram realizados por este governo provisório, antes ainda de aprovada a constituição: foram expulsos os jesuítas, encerraram-se casas religiosas, aprovaram-se leis do divórcio e da protecção dos filhos, estabeleceu-se o direito à greve, aboliram-se os títulos nobiliárquicos. O primeiro governo constitucional seria, por sua vez, chefiado por João Chagas (escritor, jornalista, político e diplomata), um homem que esteve também ligado à preparação do 5 de Outubro. Em Abril de 1911 é aprovada a lei que determinava a separação entre a igreja e o estado, jóia da coroa do corpo legislativo republicano. O diploma retirava personalidade jurídica à igreja e expropriava-lhe propriedades e bens.

Texto de José Manuel Sardica sobre a República:

"...a República não se definia apenas como uma mera alternativa de regime; mais do que isso, era uma cosmovisão socialmente laicizada e civicamente solidária, que se identificava com a democracia e com a emancipação dos homens, e com uma visão positivista do mundo que se opunha a quaisquer interpretações teológicas. Republicanizar era, primordialmente, enraizar uma mentalidade crítica, racionalista, liberta de obscurantismos e, portanto, laica."

Público - Século XX: homens, mulheres e factos que mudaram a história. [Lisboa]: Público, [1999?]

A propósito do pensamento científico, liberto de constrangimentos obscurantistas, note-se que Teófilo Braga foi um dos introdutores do pensamento de Comte, e da sua lei dos três estados, em Portugal.

quarta-feira, outubro 06, 2004

A implantação da República

No dia 5 de Outubro de 1910 foi implantada a república em Portugal. Os movimentos implicados na revolução foram o Partido Republicano Português e a Carbonária (organização secreta que tinha como principal objectivo a deposição da monarquia), com o apoio de oficiais republicanos. Cândido dos Reis, almirante da marinha de guerra, é a partir de 1908 o cérebro militar do 5 de Outubro. Na madrugada de 4 de Outubro, embora a revolução estivesse na rua, convence-se de que tudo está perdido e suicida-se. Miguel Bombarda, médico e professor de doenças do foro psiquiátrico, pertence à carbonária e esteve também implicado na conspiração que levou à implantação da república. No entanto, é morto por um doente no dia 3 de Outubro. Apesar destas baixas de última hora o movimento avança dirigido no terreno pelo comissário naval Machado dos Santos. A revolução começa à 1 da madrugada na capital. De todas as acções levadas a cabo pelos revolucionários a mais espectacular e eficaz foi a do bombardeamento por parte dos navios "S. Rafael" e "Adamastor" do Palácio das Necessidades, onde o rei D. Manuel II estava presente. Um dos tiros fez mesmo cair o pavilhão real. No final a revolução saldou-se por 76 mortos, 186 feridos civis e 122 feridos militares. Foi José Relvas, membro do partido republicano, quem, da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, proclamou finalmente a república.