O transpor do abismo
O ofício de qualquer artista reside precisamente na tentativa de exprimir o significante, ou seja, transformar em matéria aquilo que habita dentro de nós. O artista procura dar existência aos seus sentimentos através dum determinado sistema simbólico. Acerca destas considerações sugiro a leitura do seguinte excerto de Nabokov no livro, "A verdadeira vida de Sebastian Knight":
A sua luta com as palavras era invulgarmente dolorosa, e isto por dois motivos. Um deles era o habitual nos escritores do seu tipo: o transpor do abismo entre expressão e pensamento; a sensação desesperante de que a palavra certa, a única palavra possível os espera na margem oposta, lá ao longe, entre brumas, e os estremecimentos do pensamento ainda nu, a chamar por ela deste lado do abismo. De nada lhe serviam as frases banais porque as coisas que ele queria dizer eram de um talhe excepcional; sabia, além disso, que nenhuma ideia tem existência real sem palavras feitas à medida. E assim (para usar uma comparação mais exacta) o pensamento que apenas parecia nú implorava afinal que as roupas que vestia se tornassem visíveis, enquanto as palavras espreitando ao longe não eram, embora o parecessem, invólucros vazios, antes esperavam só que o pensamento que já traziam encerrado em si as inflamasse e lhes desse vida. Às vezes sentia-se como uma criança a quem tivessem dado um emaranhado de fios, ordenando-lhe que com eles fizesse o milagre da luz. E ele fazia-o; e às vezes não se apercebia sequer de como era bem sucedido na tarefa; de outras vezes torturava os fios durante horas da maneira que parecia ser a mais racional - e nada conseguia. E Clare, que não escrevera em toda a sua vida uma única linha de poesia ou prosa literária, compreendia tão bem (e era esse o seu milagre pessoal) cada pormenor da luta de Sebastian, que as palavras que passava à máquina eram menos os veículos do seu sentido natural do que as curvas e fossos e ziguezagues que mostravam o percurso de Sebastian ao longo de uma certa linha ideal de expressão.
Tradução de Ana Luísa Faria



