domingo, outubro 24, 2004

O transpor do abismo

O ofício de qualquer artista reside precisamente na tentativa de exprimir o significante, ou seja, transformar em matéria aquilo que habita dentro de nós. O artista procura dar existência aos seus sentimentos através dum determinado sistema simbólico. Acerca destas considerações sugiro a leitura do seguinte excerto de Nabokov no livro, "A verdadeira vida de Sebastian Knight":

A sua luta com as palavras era invulgarmente dolorosa, e isto por dois motivos. Um deles era o habitual nos escritores do seu tipo: o transpor do abismo entre expressão e pensamento; a sensação desesperante de que a palavra certa, a única palavra possível os espera na margem oposta, lá ao longe, entre brumas, e os estremecimentos do pensamento ainda nu, a chamar por ela deste lado do abismo. De nada lhe serviam as frases banais porque as coisas que ele queria dizer eram de um talhe excepcional; sabia, além disso, que nenhuma ideia tem existência real sem palavras feitas à medida. E assim (para usar uma comparação mais exacta) o pensamento que apenas parecia nú implorava afinal que as roupas que vestia se tornassem visíveis, enquanto as palavras espreitando ao longe não eram, embora o parecessem, invólucros vazios, antes esperavam só que o pensamento que já traziam encerrado em si as inflamasse e lhes desse vida. Às vezes sentia-se como uma criança a quem tivessem dado um emaranhado de fios, ordenando-lhe que com eles fizesse o milagre da luz. E ele fazia-o; e às vezes não se apercebia sequer de como era bem sucedido na tarefa; de outras vezes torturava os fios durante horas da maneira que parecia ser a mais racional - e nada conseguia. E Clare, que não escrevera em toda a sua vida uma única linha de poesia ou prosa literária, compreendia tão bem (e era esse o seu milagre pessoal) cada pormenor da luta de Sebastian, que as palavras que passava à máquina eram menos os veículos do seu sentido natural do que as curvas e fossos e ziguezagues que mostravam o percurso de Sebastian ao longo de uma certa linha ideal de expressão.

Tradução de Ana Luísa Faria

sexta-feira, outubro 15, 2004

Paula Rego

Inaugura hoje a exposição de Paula Rêgo no Museu de Serralves. É uma oportunidade única para ver uma antológica dos últimos anos da artista. Dentro dessa amostra pode-se encontrar a nova série chamada “Possessão”, onde Paula Rêgo pinta numa série de quadros o corpo duma mulher possuído por algo. Desejo? Amor? Dor? Angústia? Para a realização desta série, Paula Rêgo inspirou-se nas fotografias de pessoas com histeria de Jean Martin Charcot (1825-1893), presentes no livro “Les Demoniaques dans l´art”. Nas palavras da autora:

Tenho o livro «Les Demoniaques dans l´art» que inclui desenhos e fotografias muito bonitos de mulheres a terem convulsões e a retorcerem-se todas. Sempre me interessei muito pelos gestos que as pessoas dão para exprimirem situações interiores de angústia. Nos quadros renascentistas há posições de dor bastante extremas, que são muito expressivas.

A forma como o corpo traduz o espírito, como o significante traduz o significado, eis o tema de “Possessão”. A não perder.

Excerto retirado da entrevista realizada pelo jornal “Público” de 14/10/2004


Convite do Museu de Serralves

quarta-feira, outubro 13, 2004

Dicionário II

No texto de Lídia Jorge publicado anteriormente encontram-se três vocábulos que merecem ser melhor explicitados pelo dicionário. São eles:

1. adejando - agitar as asas para se manter no ar durante o vôo; voar
2. ajoujado - fazer vergar com peso ou carga excessiva; sobrecarregar
3. ajaezada - cheio de enfeites; ornado, adereçado


A prosa de Lídia Jorge

O Dia dos Prodígios

Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. Alguidarzinho ajoujado de espuma cremosa, um alguidar maior de pura água macia. Novelo de saias entre pernas. Cadeira de tábua ajaezada de nódoas, flores vermelhas. Os pés aí juntos no fundo côncavo. As pernas de leve penugem rasinha.

A língua portuguesa é um espanto. E quando é Lídia Jorge a trabalhar com tal matéria prima ainda mais espantosa fica.

domingo, outubro 10, 2004

A implantação da República II

Logo a seguir à implantação da República tomou posse o Governo Provisório cujo presidente era Teófilo Braga (professor e escritor), mas que contava também com homens como Bernardino Machado (negócios estrangeiros), José Relvas (finanças) ou Afonso Costa (justiça). Os principais pontos do programa republicano foram realizados por este governo provisório, antes ainda de aprovada a constituição: foram expulsos os jesuítas, encerraram-se casas religiosas, aprovaram-se leis do divórcio e da protecção dos filhos, estabeleceu-se o direito à greve, aboliram-se os títulos nobiliárquicos. O primeiro governo constitucional seria, por sua vez, chefiado por João Chagas (escritor, jornalista, político e diplomata), um homem que esteve também ligado à preparação do 5 de Outubro. Em Abril de 1911 é aprovada a lei que determinava a separação entre a igreja e o estado, jóia da coroa do corpo legislativo republicano. O diploma retirava personalidade jurídica à igreja e expropriava-lhe propriedades e bens.

Texto de José Manuel Sardica sobre a República:

"...a República não se definia apenas como uma mera alternativa de regime; mais do que isso, era uma cosmovisão socialmente laicizada e civicamente solidária, que se identificava com a democracia e com a emancipação dos homens, e com uma visão positivista do mundo que se opunha a quaisquer interpretações teológicas. Republicanizar era, primordialmente, enraizar uma mentalidade crítica, racionalista, liberta de obscurantismos e, portanto, laica."

Público - Século XX: homens, mulheres e factos que mudaram a história. [Lisboa]: Público, [1999?]

A propósito do pensamento científico, liberto de constrangimentos obscurantistas, note-se que Teófilo Braga foi um dos introdutores do pensamento de Comte, e da sua lei dos três estados, em Portugal.

quarta-feira, outubro 06, 2004

A implantação da República

No dia 5 de Outubro de 1910 foi implantada a república em Portugal. Os movimentos implicados na revolução foram o Partido Republicano Português e a Carbonária (organização secreta que tinha como principal objectivo a deposição da monarquia), com o apoio de oficiais republicanos. Cândido dos Reis, almirante da marinha de guerra, é a partir de 1908 o cérebro militar do 5 de Outubro. Na madrugada de 4 de Outubro, embora a revolução estivesse na rua, convence-se de que tudo está perdido e suicida-se. Miguel Bombarda, médico e professor de doenças do foro psiquiátrico, pertence à carbonária e esteve também implicado na conspiração que levou à implantação da república. No entanto, é morto por um doente no dia 3 de Outubro. Apesar destas baixas de última hora o movimento avança dirigido no terreno pelo comissário naval Machado dos Santos. A revolução começa à 1 da madrugada na capital. De todas as acções levadas a cabo pelos revolucionários a mais espectacular e eficaz foi a do bombardeamento por parte dos navios "S. Rafael" e "Adamastor" do Palácio das Necessidades, onde o rei D. Manuel II estava presente. Um dos tiros fez mesmo cair o pavilhão real. No final a revolução saldou-se por 76 mortos, 186 feridos civis e 122 feridos militares. Foi José Relvas, membro do partido republicano, quem, da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, proclamou finalmente a república.

terça-feira, outubro 05, 2004

Odisseia

Telémaco é filho de Ulisses. Exortado pela deusa Atena, decide partir em busca do pai desaparecido desde que este partira "nas côncavas naus". Numa certa manhã, no palácio de Ulisses, em Ítaca, Telémaco levanta-se disposto a solicitar ao povo um barco para procurar Ulisses. Eis os versos de Homero, no início do Canto II:

Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos,
levantou-se da sua cama o amado filho de Ulisses;
vestindo a roupa, pendurou do ombro uma espada afiada,
e nos pés resplandecentes calçou as belas sandálias.
Ao sair do quarto, assemelhava-se a um deus.
Logo ordenou aos arautos de voz penetrante
que chamassem para a assembleia os Aqueus de longos cabelos.
Aqueles chamaram; e reuniram-se estes com grande rapidez.
Quando estavam já reunidos, todos em conjunto,
dirigiu-se Telémaco à assembleia, segurando na mão
a brônzea lança - mas não ia só: dois galgos o acompanhavam.
E admirável era a graciosidade que sobre ele derramara Atena:
à sua passagem todos o olharam com espanto.
Sentou-se no assento de seu pai; os anciãos cederam-lhe o lugar.

Tradução de Frederico Lourenço

Dicionário

No soneto de Bocage publicado no "post" anterior deparamo-nos com a palavra "báratro". Segundo o dicionário Houaiss é um substantivo masculino que significa:

1. abismo, voragem
2. o inferno

O substantivo tem origem na palavra grega "bárathron" (buraco profundo, abismo, báratro onde se percipitavam os condenados em Atenas; ruína, perda).
A palavra "Báratro" está presente na linguagem vernacular desde o século XVII.

Soneto de Bocage

Contra a ingratidão de Nise

Raios não peço ao criador do mundo,
Tormentas não suplico ao rei dos mares,
Vulcões à terra, furacões aos ares,
Negros monstros ao báratro profundo:

Não rogo ao deus do amor, que furibundo
Te arremesse do pé de seus altares;
Ou que a peste mortal voe a teus lares,
E murche o teu semblante rubicundo:

Nada imploro em teu dano, ainda que os laços
Urdidos pela fé, com vil mudança
Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços:

Não quero outro despique, outra vingança,
Mais que ver-te em poder de indignos braços,
E dizer quem te perde, e quem te alcança.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Canto de Alcmena

Tirana ausência
Que me roubaste
E me levaste
Da alma o melhor.
Se ausente vivo
Já sem alento,
Cesse o tormento
De teu rigor.
Ai de quem sente
De um bem ausente
A ingrata dor!
Se eras minha alma,
(Ai prenda bela!)
Como sem ela
Com alma estou!
Porém já vejo
Que em meu delírio
Para o martírio
Só viva estou.
Ai de quem sente
De um bem ausente
A ingrata dor!

António José da Silva, «O Judeu»

António José da Silva nasceu no Rio de Janeiro, a 8 de Maio de 1705, numa família de cristãos-novos, que tinha ido para a colónia sul-americana em busca dum país mais tolerante. Acusada de Judaísmo, a mãe do «Judeu» é presa em 20 de Fevereiro de 1712 e deportada para Lisboa para ser entregue à inquisição. Logo depois os filhos seguem-na, chegando a Lisboa no dia 10 de Outubro do mesmo ano. António José da Silva cresce em Lisboa, forma-se em direito na Universidade de Coimbra no ano de 1728 e regressa a Lisboa para exercer advocacia na companhia do pai. Em 1734 ou 35 casa-se com a sua prima Leonor Maria Carvalho de quem tem uma filha, Lourença. O período de criação literária de António José da Silva vai de 1733 a 1738. A 5 de Outubro de 1737, juntamente com a mãe e com a mulher, é preso. Acusado por uma escrava de prática judaizantes, António José da Silva fica encarcerado durante um ano sendo torturado e, finalmente, condenado como “herege, apostato da nossa Santa Fé Católica, negativo, pertinaz, impenitente e relapso.” No auto-de-fé de 18 de Outubro de 1738, António José da Silva confessa sendo estrangulado e posteriormente queimado.

Informação retirada do livro:

Jabouille, Victor, Seabra, Ana de - Anfitrião ou Júpiter e Alcmena. Mem Martins, Editorial Inquérito, 2000. (Colecção Clássicos; 14)

Anfitrião ou Júpiter e Alcmena

Fui com a Carla ao Teatro Nacional São João ver a peça de António José da Silva intitulada “Anfitrião ou Júpiter e Alcmena”. A história faz parte da mitologia clássica e tem sido ao longo dos tempos adaptada para o teatro, embora cada autor construa a sua própria versão, acentuando ora o carácter trágico ora o carácter cómico da narrativa. A primeira dramatização foi realizada pelo comediógrafo latino, Plauto (250-184 a.C.). Entre nós, a nacionalização desse tema clássico pertenceu ao genial António José da Silva, «O Judeu» como também era conhecido. A sua versão tende decisivamente para o lado cómico, explorando de forma perspicaz a confusão provocada pela temática do duplo. Mas a sua interpretação do tema clássico vai mais longe ao focar-se exclusivamente na primeira parte da intriga e ao incluir novas personagens (Juno, Íris e Tirésias) ao argumento original. A primeira representação da obra deu-se no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, no ano de 1736. O resumo da obra de António José da Silva é o seguinte, tal como aparece no texto original do dramaturgo português:

Júpiter, marido da deusa Juno, por gozar da formosura de Alcmena, mulher de Anfitrião, General dos Tebanos, se transforma em Anfitrião, por conselho de Mercúrio, Embaixador dos Deuses, tomando este também a forma de Saramago, criado de Anfitrião, para ajudar que Júpiter consiga o seu intento, por meio dos seus enganos; o que Júpiter consegue, introduzindo-se em casa de Alcmena com o nome de Anfitrião, acompanhando-o Mercúrio, que toma o nome de Saramago, estando Anfitrião ausente de Tebas contra El-rei dos Telebanos, donde vindo vitorioso, por ter morto ao mesmo Rei, Júpiter lhe usurpa o triunfo com que em Tebas o esperavam, ficando juntamente laureado Júpiter dentro do mesmo Senado com a ilusão da figura e nome de Anfitrião, o qual, voltando para a cidade de Tebas, já na sua própria casa é preso por Tirésias, Ministro de Tebas, juntamente com Alcmena, e condenados à morte, por indústria e vingança da Deusa Juno, que se disfarça com o nome de Flérida, em casa de Anfitrião. Mas enfim, como inocentes do imposto delito, são livres de serem sacrificados, por declaração de Júpiter, que sustenta o engano até ao fim, e deixa em Alcmena, por sua descendência, o esclarecido, fortíssimo e nunca vencido Hércules. O mais de verá no contexto da Obra.

O texto é uma maravilha, com uma riqueza vocabular imensa, diálogos rápidos e certeiros e expressões de grande comicidade. Em palco, as personagens de que mais gostei foram as mais cómicas, precisamente as dos criados, Saramago (de Anfitrião) e Cornucópia (de Alcmena). A personagem mais dramática é Alcmena, sofrendo primeiro com a ausência do marido e sentindo-se depois dividida entre dois Anfitriões.



Convite do São João

Almada Negreiros

A sombra sou eu

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre sempre às portas de mim!



Almada

domingo, outubro 03, 2004

Nascimento

Nascimento dum blog onde eu (Pedro) e a Carla vamos "postar" acerca de tudo aquilo que nos interessa. Não há limites: livros, cinema, televisão, política, ciência, música, you named it. Espero que gostem!