Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Anfitrião ou Júpiter e Alcmena

Fui com a Carla ao Teatro Nacional São João ver a peça de António José da Silva intitulada “Anfitrião ou Júpiter e Alcmena”. A história faz parte da mitologia clássica e tem sido ao longo dos tempos adaptada para o teatro, embora cada autor construa a sua própria versão, acentuando ora o carácter trágico ora o carácter cómico da narrativa. A primeira dramatização foi realizada pelo comediógrafo latino, Plauto (250-184 a.C.). Entre nós, a nacionalização desse tema clássico pertenceu ao genial António José da Silva, «O Judeu» como também era conhecido. A sua versão tende decisivamente para o lado cómico, explorando de forma perspicaz a confusão provocada pela temática do duplo. Mas a sua interpretação do tema clássico vai mais longe ao focar-se exclusivamente na primeira parte da intriga e ao incluir novas personagens (Juno, Íris e Tirésias) ao argumento original. A primeira representação da obra deu-se no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, no ano de 1736. O resumo da obra de António José da Silva é o seguinte, tal como aparece no texto original do dramaturgo português:

Júpiter, marido da deusa Juno, por gozar da formosura de Alcmena, mulher de Anfitrião, General dos Tebanos, se transforma em Anfitrião, por conselho de Mercúrio, Embaixador dos Deuses, tomando este também a forma de Saramago, criado de Anfitrião, para ajudar que Júpiter consiga o seu intento, por meio dos seus enganos; o que Júpiter consegue, introduzindo-se em casa de Alcmena com o nome de Anfitrião, acompanhando-o Mercúrio, que toma o nome de Saramago, estando Anfitrião ausente de Tebas contra El-rei dos Telebanos, donde vindo vitorioso, por ter morto ao mesmo Rei, Júpiter lhe usurpa o triunfo com que em Tebas o esperavam, ficando juntamente laureado Júpiter dentro do mesmo Senado com a ilusão da figura e nome de Anfitrião, o qual, voltando para a cidade de Tebas, já na sua própria casa é preso por Tirésias, Ministro de Tebas, juntamente com Alcmena, e condenados à morte, por indústria e vingança da Deusa Juno, que se disfarça com o nome de Flérida, em casa de Anfitrião. Mas enfim, como inocentes do imposto delito, são livres de serem sacrificados, por declaração de Júpiter, que sustenta o engano até ao fim, e deixa em Alcmena, por sua descendência, o esclarecido, fortíssimo e nunca vencido Hércules. O mais de verá no contexto da Obra.

O texto é uma maravilha, com uma riqueza vocabular imensa, diálogos rápidos e certeiros e expressões de grande comicidade. Em palco, as personagens de que mais gostei foram as mais cómicas, precisamente as dos criados, Saramago (de Anfitrião) e Cornucópia (de Alcmena). A personagem mais dramática é Alcmena, sofrendo primeiro com a ausência do marido e sentindo-se depois dividida entre dois Anfitriões.



Convite do São João

1 Comments:

At 28 de Dezembro de 2008 14:53, Anonymous Anónimo said...

Em tempos muito repressivos no nosso país,fiz teatro amadôr sob a direcção de Rui de Matos,nesta peça representei Alcmena,gostei imenso...

 

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